PROPAGANDHI – SUPPORTING CASTE (2009)
it’s all left to chance.
A piece of advice:
if you’re cast on thin ice,
you may as well dance. “ Supporting Cast(e)
Será que existe uma idade em que paramos de sonhar e desejar um mundo melhor? Cansamo-nos ou acomodamo-nos? Ficamos com o coração partido tantas vezes que decidimos proteger-nos e vamos esquecendo os ideais que tínhamos quando éramos livres de preocupações e obrigações? Vemos tantos pedintes na rua que já não olhamos nem pensamos nisso? Tantos cães abandonados que optamos por enxotar com medo de doenças? Casais de namorados aos beijos e sorrimos com amargura porque sabemos que vai acabar em breve? Amigos que passam a ser apenas conhecidos porque já não há conversa? Lemos sobre tráfico de tudo e qualquer coisa e ficamos chocados por uns segundos, assinamos uma petição e esquecemos tudo imediatamente.
Fumamos e bebemos sozinhos com medo de várias coisas, doenças que podemos vir a ter, a pessoa X que pode não gostar tanto de nós como gostamos dela e os amigos que nos podem estar a atraiçoar. Bebemos porque estamos a sofrer, não sabemos bem porquê mas é como se não soubéssemos qual é o nosso lugar no mundo e tudo fosse completamente irrelevante - então por que é que não deixamos tudo, pegamos numa mochila e vamos para uma montanha qualquer? Porque não sobreviviamos mais de uma semana, com sorte, talvez um mês. Há quem sobreviva e há quem continue com o mesmo coração e ideais - há quem os transmita através da pintura, cinema ou música.
Os Propagandhi fazem-no através da música. Ao longo da sua carreira sempre fizeram música com uma forte contestação social e uma elevada dose de sarcasmo. Criticaram preconceitos de origens várias: racismo, sexismo, xenofobia e homofobia. “Homophobes are just pissed because they can’t get laid” é um hino poderoso contra a descriminação aos homossexuais.
Sempre fizeram música baseando-se naquilo em que acreditavam e não no que pensavam que iria vender, como é sintomático de muitas bandas hoje em dia e de muita música pop que apesar de divertida, nada traz de interessante em termos de conteúdo e valores. Já os Propagandhi presentearam-nos com música divertida e com mensagens de valor.
Este disco, no entanto, não tem tanto de sátira nem do humor que sempre os caracterizou. É um disco mais maduro e que foi bastante acarinhado no seio da comunidade punk e considerado o melhor disco de 2009. É uma pena que esse carinho não se tenha estendido a outras comunidades, pois é um disco forte e recheado de boas músicas que espero que um dia possam tornar-se clássicos.
A capa do disco é uma tela intitulada “The Triumph of Mischief” do artista canadiano Kent Monkman (vale a pena fazer uma visita ao seu site oficial) que se centra na temática dos nativos (os chamados indios) e de como seria o mundo se a história se tivesse invertido e os colonos tivessem sido os subjugados. As telas também têm um forte foco na temática da sexualidade. Homossexualidade e confusão de género são uma das características da maior parte dos seus quadros.
A música sempre abrigou o que é considerado “diferente” e “estranho”, tornando-o sublime e um ponto de encontro para pessoas com perspectivas e aspirações semelhantes na vida. Este disco apela ao nosso sentimento de desesperança e transforma-o numa coisa positiva e não tão torturante. Faz-nos aceitar a nossa condição de meros humanos mas com poder para alterar algumas coisas que achamos estar erradas.
Durante as doze faixas deste disco acreditamos que temos voz e presença num mundo que às vezes se abate sobre nós com uma crueldade insuportável e nos deixa apáticos e deprimidos. É um album em que precisei de entrar bem, ler as letras, e ouvi-lo com calma e mais do que uma vez. Comigo só teve impacto a sério quando o ouvi pela segunda vez, mas também, as coisas difíceis são as mais sedutoras.
“I spend sleepless nights
as my head swims worrying about you.
You work the night shift so you won’t be alone.
I am adept at cold.
(…)
I see distant lights up ahead
but I’m worrying about you.
It’s all taking its toll and you can’t concentrate.
You are being crushed by the world.
I have gotten lucky so far.
We sit at the end of this night dialing.”
NIGHT LETTERS
CZ




3 comentários:
"e de como seria o mundo se a história se tivesse invertido e os colonos tivessem sido os subjugados." já questionei isso várias vezes e talvez fosse muito melhor! vou ouvir com mais atenção!
Bem-vinda!
obrigada :D
Enviar um comentário