segunda-feira, fevereiro 14, 2011

PROPAGANDHI – SUPPORTING CASTE (2009)


“And so in these days, in this terminal phase,
it’s all left to chance.
A piece of advice:
if you’re cast on thin ice,
you may as well dance. “ Supporting Cast(e)

Será que existe uma idade em que paramos de sonhar e desejar um mundo melhor? Cansamo-nos ou acomodamo-nos? Ficamos com o coração partido tantas vezes que decidimos proteger-nos e vamos esquecendo os ideais que tínhamos quando éramos livres de preocupações e obrigações? Vemos tantos pedintes na rua que já não olhamos nem pensamos nisso? Tantos cães abandonados que optamos por enxotar com medo de doenças? Casais de namorados aos beijos e sorrimos com amargura porque sabemos que vai acabar em breve? Amigos que passam a ser apenas conhecidos porque já não há conversa? Lemos sobre tráfico de tudo e qualquer coisa e ficamos chocados por uns segundos, assinamos uma petição e esquecemos tudo imediatamente.
Fumamos e bebemos sozinhos com medo de várias coisas, doenças que podemos vir a ter, a pessoa X que pode não gostar tanto de nós como gostamos dela e os amigos que nos podem estar a atraiçoar. Bebemos porque estamos a sofrer, não sabemos bem porquê mas é como se não soubéssemos qual é o nosso lugar no mundo e tudo fosse completamente irrelevante - então por que é que não deixamos tudo, pegamos numa mochila e vamos para uma montanha qualquer? Porque não sobreviviamos mais de uma semana, com sorte, talvez um mês. Há quem sobreviva e há quem continue com o mesmo coração e ideais - há quem os transmita através da pintura, cinema ou música.
Os Propagandhi fazem-no através da música. Ao longo da sua carreira sempre fizeram música com uma forte contestação social e uma elevada dose de sarcasmo. Criticaram preconceitos de origens várias: racismo, sexismo, xenofobia e homofobia. “Homophobes are just pissed because they can’t get laid” é um hino poderoso contra a descriminação aos homossexuais.
Sempre fizeram música baseando-se naquilo em que acreditavam e não no que pensavam que iria vender, como é sintomático de muitas bandas hoje em dia e de muita música pop que apesar de divertida, nada traz de interessante em termos de conteúdo e valores. Já os Propagandhi presentearam-nos com música divertida e com mensagens de valor.
Este disco, no entanto, não tem tanto de sátira nem do humor que sempre os caracterizou. É um disco mais maduro e que foi bastante acarinhado no seio da comunidade punk e considerado o melhor disco de 2009. É uma pena que esse carinho não se tenha estendido a outras comunidades, pois é um disco forte e recheado de boas músicas que espero que um dia possam tornar-se clássicos.
A capa do disco é uma tela intitulada “The Triumph of Mischief” do artista canadiano Kent Monkman (vale a pena fazer uma visita ao seu site oficial) que se centra na temática dos nativos (os chamados indios) e de como seria o mundo se a história se tivesse invertido e os colonos tivessem sido os subjugados. As telas também têm um forte foco na temática da sexualidade. Homossexualidade e confusão de género são uma das características da maior parte dos seus quadros.
A música sempre abrigou o que é considerado “diferente” e “estranho”, tornando-o sublime e um ponto de encontro para pessoas com perspectivas e aspirações semelhantes na vida. Este disco apela ao nosso sentimento de desesperança e transforma-o numa coisa positiva e não tão torturante. Faz-nos aceitar a nossa condição de meros humanos mas com poder para alterar algumas coisas que achamos estar erradas.
Durante as doze faixas deste disco acreditamos que temos voz e presença num mundo que às vezes se abate sobre nós com uma crueldade insuportável e nos deixa apáticos e deprimidos. É um album em que precisei de entrar bem, ler as letras, e ouvi-lo com calma e mais do que uma vez. Comigo só teve impacto a sério quando o ouvi pela segunda vez, mas também, as coisas difíceis são as mais sedutoras.

I spend sleepless nights
as my head swims worrying about you.
You work the night shift so you won’t be alone.
I am adept at cold.
(…)
I see distant lights up ahead
but I’m worrying about you.
It’s all taking its toll and you can’t concentrate.
You are being crushed by the world.
I have gotten lucky so far.
We sit at the end of this night dialing.”
NIGHT LETTERS


CZ

3 comentários:

Priscilla Fontoura disse...

"e de como seria o mundo se a história se tivesse invertido e os colonos tivessem sido os subjugados." já questionei isso várias vezes e talvez fosse muito melhor! vou ouvir com mais atenção!

André Vieira disse...

Bem-vinda!

cz disse...

obrigada :D