sexta-feira, maio 28, 2010

Kurt Kren


A arte marginal tem muito que se lhe diga. Há reflexões que nos atrapalham a lógica assim como questões que nem uma eternidade saberia responder. Se formos à memória da história sabemos que muitas culturas e raças foram excluídas simplesmente por serem diferentes e por não se encaixarem nos cânones vigentes.

O documentário “Reel bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People”espreme bem esse assunto - os vilões dos filmes blockbuster de Hollywood assumem, frequentemente,  o papel dos personagens “sombra” (alusão à figura dos vilões dos filmes noir em que só se via metade do rosto): os italianos são os mafiosos, os árabes os terroristas e por aí adiante. Também é difícil aceitar o que é marginal.

A arte marginal tornou-se numa ameaça por não se prostituir em becos de esquina; ela é destemida, rebelando-se contra a propaganda, e não se escraviza. A Entertete Kunst (Degenerate art) é um dos exemplos maiores de como a arte pode instalar uma verdadeira ameaça.  A prostituição da arte ultrapassa a dignidade. Ainda assim ela tem o dom da premeditação imbuída de metáforas e ficção.

O austríaco Kurt Kren (1929-1998) é um exemplo puro dessa fidelidade. Curiosamente nasce de uma união entre dois povos em choque -  mãe alemã e  pai judeu. Na década de 50 iniciou a sua carreira nos filmes experimentais filmados em 8 mm, paralelamente à sua colaboração com Konrad Bayer cujos filmes perderam-se de vista. Sete anos depois começou a filmar em 16 mm. Talvez muitos dos vídeo artistas de hoje sem saberem da existência de Kurt Kren vão, talvez, encontrar, inconscientemente, referências ao seu trabalho. Kren ajudou-nos, certamente, a preparar para grupos como Survival Research Laboratories e  Modernos Primitivos. Os temas dos seus filmes foram objectos do quotidiano – paredes, árvores, pessoas, mas manipulada de acordo com a elaboração de diagramas e gráficos que mostraram uma sensibilidade da técnica e do conteúdo. Uma das suas primeiras obras 4/61: Walls, Positive and Negative, tal como o título sugere, consegue hipnotizar qualquer espectador com uma sequência de fotografias estroboscópicas alternada em ritmos, criando, per si, uma espécie de estado onírico. 

O que este artista tem de interessante são as imagens capazes de gritar música sem na realidade ela existir. Embora apareçam numa aparente sequência desordenada, as imagens regem-se por uma partitura criada por Kren. Todos os seus filmes são registados mediante a ordem cronológica, a data de criação e a duração, 10/65 Self-Mutilation (10/65 Selbstverstümmelung, 1965). Este filme não se trata de uma provocação frente a uma câmara. Vai além de uma performance literal. Podemos ver como as obras de Kren são actuais ainda hoje. Faz mais sentido vermos o filme sem música mas a verdade é que não incomoda ao som de Arvo Pärt.


Em contraste com a sua criação original, o vanguardista do cinema experimental viveu uma vida conturbada. A exibição dos seus primeiros filmes, na Áustria, foram vaiados pela audiência e muitas pessoas abandonaram as salas de projecção chocadas. Pediram a Kren para abandonar a sala e nunca mais voltar. Os seus filmes foram confiscados pela polícia em 68. Dois anos antes participou no simpósio da Arte Autodestrutiva de Londres.A partir de 68 Kren viveu fora da Aústria e viveu muito tempo nos Estados Unidos. Chegou a dormir no carro e trabalhou como segurança no Museum of Fine Arts de Houston. Em 89 regressou à Áustria.  Kren morreu em 98, mas continua a ser um marco na história do cinema experimental. 

Inicialmente publiquei no blog Amplificasom mas achei que também fazia sentido publicar aqui no nosso cantinho.  

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